Por Felipe Carneiro
Mais do que uma questão estética, o cabelo afro é uma forma de expressar a negritude, celebrar a ancestralidade e desafiar padrões eurocêntricos de beleza ainda extremamente marcados na sociedade. Por isso, assumir os fios naturais se torna um ato político e de afirmação cultural. Para milhões de pessoas negras, cabelo afro é um símbolo ancestral vivo, de orgulho e luta contra o racismo que tentou apagar suas raízes.
Cada cacho, cada trança, cada textura carrega gerações inteiras que se recusam a serem silenciadas. Por muito tempo, o cabelo afro foi alvo de discriminação, associado de forma equivocada à desordem, à falta de cuidado ou até à marginalização. Dentro das escolas, dos espaços de trabalho e até nas mídias, pessoas negras ouviram que seus fios precisavam ser 'domados', 'esticados' ou escondidos para se encaixarem em um ideal de beleza que não foi feito para elas. Mas, resistindo a tudo isso, o cabelo afro se mantém como um símbolo poderoso de identidade, força e resiliência. Cuidar desse cabelo é, também, resgatar práticas ascendentes, fortalecer laços comunitários e manter viva uma cultura que resiste ao apagamento.
Utilizando a Bahia como recorte, é possível observar ainda mais presente essa cultura- até pelo fato de que o estado é uma das regiões onde encontra-se a maior concentração de pessoas negras no país. Entretanto, devido os altíssimos índices de racismo no Brasil, mobilizações e eventos contra o preconceito e valorização da cultura afro e afro-brasileira tem acontecido com mais intensidade e frequência. A exemplo disso, tem-se o Baianize, evento promovido pela Unifat neste último mês de maio, no qual reuniu diversas palestras, workshops e outros eventos que ressaltavam o tema.
História das tranças
As tranças surgem há mais de 3.500 anos, com registros arqueológicos em regiões como o norte da África, especialmente no Egito antigo. Pinturas e esculturas já exibiam diferentes tipos de tranças. Porém, a tradição das tranças se espalha por todo o continente africano, com cada povo desenvolvendo estilos específicos que carregavam significados próprios. Elas também tinham determinadas funções em âmbitos como: Etnia, origem, estado civil, classe social, fase da vida, poder espiritual ou função religiosa, status de guerreiro ou liderança. Além disso, o ato de trançar é coletivo, feito em roda, promovendo conexão, afeto e transmissão oral de saberes.
Durante o tráfico transatlântico de indivíduos escravizados, as tranças também foram um símbolo de resistência, na qual algumas pessoas trançavam mapas nas cabeças para indicar rotas de fuga. Outras escondiam sementes nas tranças, garantindo meios de cultivo após fugas ou durante o cativeiro.
Hoje em dia, as tranças são usadas tanto como expressão estética quanto política, reforçando a resistência contra o racismo estrutural e fortalecendo a autoestima de pessoas negras. Além de seguir carregando significados culturais, apesar de também circularem no mercado da moda — algo que gera discussões a respeito da apropriação cultural.

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